domingo, 15 de outubro de 2023

Fênix

 Caio,


Ressurgi das próprias cinzas. À beira do abismo me lancei e voei como Ícaro até o sol. A cera de minhas asas derreteu até que do alto caí. Em uma elipse mergulhei no infinito céu azul enquanto o vento passava ligeiro por mim. Caí em mim quando meu corpo morto afundou nos verdes mares da incompreensão. Flutuando em água e sal pouco a pouco cheguei ao fundo [de mim]. Pus os pés no solo [tão só] e impulsionei em camêra lenta o retorno à superfície. 

Ainda úmida descansei sob o sol quente. Queimei até o último milímetro de pele. Voltei ao pó como cinzas. E do pó retornei. Reconstituo minha existência. Todos os dias, a cada dia. Faço-me nova em muitas dimensões. Sim, estive para além da beira do abismo, morri e renasci.

Viver é gerúndio. Sigo vivendo esta nova vida na mesma vida. Sou outra, como de hábito. De ti breves recordações. É uma nova existência em que não há lugar para ti. 

Tua existência dependia da minha, mas se já não existo como fui, então como poderias seguir existindo. Renovo, ressurjo, renasço, corporifico o mesmo corpo com alma nova. E tu... Sinto dizer, Caio Marques, não há mais lugar para ti na teia desta vida que ora teço. 

Já não cabes, já não caibo, já não cabe história ou memória entre nós. Tudo o que vivemos já foi tecido em outras cores. Está lá derramado sobre o sofá guardado no quarto dos fundos. Foi lindo o que vivemos. Foi. 

Sigo, como sempre sigo, ressurgindo das cinzas a cada volta do parafuso. 

Anita Lopes




sábado, 20 de maio de 2023

Carta do novo ciclo

 Querido Caio,


Finalmente me desarmo. Exausta largo a armadura úmida sobre o tapete, deito as armas uma após a outra. Olho em volta, busco um lugar seguro para enfim descansar. Deixo-me cair em frente à janela distante. Dispo-me com olhos longínquos e esvaziados. Surpreendo-me todos os dias com a mulher que andava entrincheirada por detrás dos muros. Sempre armada, nunca assustada. Agora que a vejo despida quase não a reconheço. Tão frágil, silenciosa e solitária. Vejo o desamparo em seus olhos e logo fica evidente que a solidão a acompanha desde sempre. 

Ladeada pela solidão seguiu seu caminho armada até os dentes. Não se entregou jamais. Sempre forte diante dos obstáculos e desafios manteve-se na caminhada cheia de certezas absolutas muito duvidosas. Sempre seguindo. Sempre fugindo. A verdade, Caio, é que mais uma vez segui. Não, eu não consegui permanecer além de 2022. Precisei sair às pressas como sempre fiz e se me perguntares agora o porquê da fuga, diria que foi insuportável me ver escondida entre paredes, protegida e sob o manto da invisibilidade e a armadura de guerreira ou talvez tenha sido insuportável ver que só consigo estar na vida quando protegida por muros e máscaras.

Sim, fugi. E agora, desarmada, sinto-me desalmada. Derretendo dia e noite, descubro que tudo o que fui não era. Não me surpreende que a ficção tenha sido tão presente e o único lugar seguro, além do trabalho compulsivo. Pergunto-me todos os dias o que mantém as pessoas vivas, se despida sinto-me sobrevivendo. Não sei ser sem a armadura, não sei ser. Nada mais faz sentido, Caio. Nem minha escrita faz sentido. Tento concluir o Um Amor em 7 cidades para inscrever no edital ao tempo em que constato que C. era mais que ficção. Quem sou? Para quê estou aqui? 

Para escrever ficção? A única ficção que escrevo é a vida que [sobre]vivo. As únicas estórias interessantes são as que invento a meu respeito. Sou uma atriz sem platéia, uma escritora não publicada, uma mãe negligente, uma péssima esposa, sou nada. E olha que passei a vida parecendo ser o melhor de cada um desses papéis que o dramaturgo da vida me deu. Falhei! Falhei miseravelmente. E agora, se o que faço para permanecer na vida é alimentar a ilusão de que posso contribuir de algum modo com o saber que recolhi ao longo do caminho. Ilusão. Cada ser em si faz seu caminho enquanto caminha. E o meu caminho é uma obra inacabada de ficção. Até meus amores foram todos inventados para performar alguém que não sou. Tudo fingimento. 

E quando me leio aqui contigo sinto tristeza de me ver assim nesse lugar de desamparo. Vagueando pelas ruas, andarilha descalça. O que mantém alguém na vida? Para uns o fio fino que as conecta é a viagem psicodélica das drogas lícitas ou ilícitas, as metas insanas de uma sociedade voraz e capitalista, o sexo ou os enlaces e histórias de fracassos amorosos sucessivos, o trabalho [que dignifica o homem], as compras e os prazeres terrenos. O que me mantém viva? 

Antes era a ficção. E agora que o pano caiu, o que restou para me manter aqui? Não vejo sentido. Não quero te ferir, nem traumatizar os meus, sequer quero causar espanto [afinal, Anita tem tudo]. 

A vida é vazia de significados e nas últimas décadas dei um significado inventado, mas estou cansada de criar significancia para as coisas, de inventar razões de existir. Quero dormir, apenas dormir eternamente. Quero retornar para onde nunca devia ter saído e - pasme! - lá permanecer. 

Parece covarde? Não é, nem é. E se a vida é vazia de significados, não há significado em morrer. Não somos todos pó? Não retornaremos a ele em algum momento? Por que não agora? Por que esperar a decrepitude ou uma bala perdida. Por que não dormir e não mais acordar? 

Talvez me perguntes: E teus gatos? E respondo, estou certa de que encontrarão uma alma boa que lhes dê conforto e comida pelo resto dos seus dias. 

Eu, de minha parte, parto. 

Deixo-te finalmente e ponho um ponto final nessa nossa história sem pé, nem cabeça. 



*esta é uma obra de ficção qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência. 


terça-feira, 19 de julho de 2022

Caio, fim de sessão!

 Caio,


Caio diante de minhas circunstâncias. Caio aos pés das contradições que me compõem. Caio. Depois de tanto tempo, ainda caio. 

Pergunto-me vira-e-mexe por onde andarás tu,Caio Marques enquanto toco com as pontas dos dedos as marcas deixadas por ti. Cicatrizes? 

Eu me perdi ao te encontrar e me encontrei ao te perder. O que mais posso dizer depois de dois anos e dias de um isolamento compulsório seguido de meses de isolamento compulsivo. Já não sou mais quem fui, já nem sei quem sou e descobri essa estranha mania de me voltar para dentro, de permanecer na segurança dos muros, das paredes de pedra e a fruir a vida por uma lasca de céu no quintal, um vão da janela. Prisioneira de mim, sinto-me livre para viver intensamente minha própria companhia. 

O que me contas? Por onde andastes nesse tempo fora do tempo? Quem te tornastes? 

Eu de cá vi cair as máscaras de quem acreditava ser e vivo hoje com todas as minhas peles penduradas no varal. Despida completamente observo curiosa quem sou por debaixo da carapaça. Tão vulnerável e tão resistente. Tão rígida e tão incrivelmente malemolente. Finjo ser quem de fato sou ou sou quem nunca fui. Não sei. Confesso que não sei. 

Neste ano de 2022 nada sei a meu respeito, exceto que estou viva e silenciosamente observo o mundo a meu redor para além dos muros, para além das paisagens da janela, miro o infinito e é tão particular, tão profundo quanto a cova rasa que nos espera. Espero.

E a espera é algo novo por aqui. Se bem te lembras, eu sigo. Ao seguir, eu fujo. Fujo ligeira, fujo escondida entre véus e fumaça. Desapareço, deixando pedaços de mim pelo caminho. Então, me disponho à espera, à permanência. Coloco-me aqui sem casca, sem muros, sem proteção à espera. Olho para a tela vazia, deslizo meus dedos sobre o papel em branco... Lá estou eu, um ponto no meio do vazio criador, pronta para me recriar, pronta para me tornar quem sou. 

Nunca fui tua, agora vejo. Tu és meu. 

Não imagino como estás, nem quem és agora. Cabe a mim te recriar, te dar um destino. Da minha cabeça tu nascestes e é ela que agora te coloca no lugar de ouvinte silencioso. Como um psicanalista sentado na poltrona no canto da sala, com seus óculos de aros escuros, com seu cachimbo na boca, um bloco, uma caneta, pernas cruzadas e grisalhos cabelos em desalinho. Seu lugar [agora] é este. O observador de mim. Nada de opiniões ou comentários, nada de afetos, apenas o respeitoso silêncio observador. 

E assim, tomo as rédeas da história e coloco-te em teu lugar.

Finalizo ciclos, finalizo estórias, concluo projetos, percursos, passados. Estou às voltas com o ponto [final].


Anita Lopes




sábado, 11 de junho de 2022

Carta para Ele

 Àquele que não encontrei

SJDR, 11 de Junho 2022


Hoje Vênus está em Touro. Finalmente juntos o signo e seu regente, com todo o tempo do mundo para sentir. Todo o tempo para saborear e viver as sensações e os prazeres da mesa, da cama, do chão e do infinito particular deste encontro. 

Hoje, véspera do dia dos namorados do ano de 2022, o começo da segunda década do século XXI. E sigo. Sigo a caminhada iniciada há 5 décadas, mudando de endereço, de cidade, de estado, de região e, quem sabe de país em busca da saudade do que não vivi, dos olhos que nunca vi, do cheiro que ainda não senti. 

Hoje, dia em que comemoro os 22 anos de separação do pai dos meus filhos. Dia em que celebro tantos dias dos namorados aquecida por um tinto ou refrescando a vida com as borbulhas da espumante, bem acompanhada com amigas, em festas de solteiras. Dia de lembrar da crônica lida em Arcamundo  'amigos são para sempre'. 

[são para sempre?]

Hoje diria que tudo o que guardo na memória é para sempre. Tudo o que me lembro [e me lembra] é para sempre. Não é bom ou mau. É eterna em mim a saudade do que não vivi, o força do olhar com no qual meus olhos ainda não pousaram, o aconchego do abraço na noite fria que no endereço número 36 não encontrei. E, por uma estranha razão, que não sei se é cansaço ou sabedoria já não me entristece. 

A saudade já não é nostalgia é memória e desejo de manter acesa a chama no centro da casa e o sorriso que ora me habita suave e terno como agora me encontra. 

Tanto tempo em busca de Ti nesta Terra de ninguém. Tanto tempo me negando a receber todas as dádivas que me foram ofertadas por que não vinham de Ti, para enfim perceber que sempre foram Tuas. Que sempre vieram de Ti e que, ao contrário do que pensava, não estaria te traindo ou substituindo. Estaria sim, [re]vivendo novos momentos com outras formas de Tua manifestação. 

Percebo agora quantos nãos disse, quantas portas fechei, quantos finais escrevi, quantas cartas finais enviei, quantas vezes busquei em fuga teu colo, quando sempre estivestes disponível para mim em outros braços, em tantos abraços, em quantos olhares doces e disponíveis. 

E talvez...só talvez escolha agora desconsiderar o chamado, os gritos, os gestos que me sinalizam a partida  e serenamente fique. Talvez incorpore toda essa energia para pintar as paredes, empurrar os móveis, reformar o terraço, ajeitar o jardim e, simplesmente permaneça. Serenamente permaneça. 

Talvez suba a Serra e la do alto me aventure a permanecer sentindo a brisa fria do inverno passar por mim, como por tantos já passei. Talvez permaneça ali por tantas horas que o sol se despeça e me abra a chegada da noite estrelada, talvez aceite tuas dádivas e abra meu coração para o teu Amor que sempre esteve disponível para mim. 

Talvez agora me permita preencher com teu Amor abundante e diga Sim em lugar de tantos Nãos. Talvez agora possa finalmente me entregar ao teu Amor e transbordar o meu Amor sem reservas ou senões. 

Talvez, só talvez este seja um ano diferente em que eu finalmente pare de correr. E se ainda me quiseres, cá estou. Pronta para dizer sim e me entregar a Ti completamente. 

Sempre Tua, 

Anita Lopes.


sábado, 1 de janeiro de 2022

Saudades de mim

Setembro, 2020. 

Caio,

Hoje eu acordei com saudades de mim. Saudades de dançar sem roupas no quintal, cozinhar mil coisas ao mesmo tempo. Música, longos banhos, nenhuma agenda e um inadiável compromisso comigo. Senti saudades de comer devagar ao som de sonhos. Saudades de abrir as janelas e o coração. Senti saudades de escrever. Senti saudades de te escrever. E talvez tenha sentido saudades de ser lida.

Ser lida? Ser lida. Lido todos os dias com a lida dos dias, dos desafios, das emoções, de mim e de minhas circunstâncias. Lido com o confinamento e com a liberdade de ser. Lido com a vida como ela é, brutalmente real. Lido com as ilusões que partiram e me deixaram com a mala na mão diante da estação. Lido com a necessidade real de ser lida por que mesmo o sol quente já não é suficiente para aquecer a minha pele fria.

E assim passam os dias reais. Estou bêbada de tanta realidade. Faz mais de ano e dia que não escrevo ficção, que não invento amores impossíveis e serenamente me sento para tomar sol no batente da cozinha olhando o muro encardido pelos meses de isolamento compulsório. Está úmido... em tempo de desmoronar diante da vida real. 

A realidade é um silêncio e longos dias. Um silêncio que se expande no canto dos passarinhos, no miado dos gatos e nos latidos insistentes da cachorrada da rua. A realidade é um cotidiano sem grandes novidades aqui dentro e um mundo em ruínas lá fora, onde o número de mortes físicas se acumula com o crescimento exponencial do número de mortos-vivos. 

Somos o futuro sem futuro. Somos o presente se reinventando a cada amanhecer. Ou sou só eu? Talvez seja apenas eu aqui entre as paredes da casa, tomando sol no batente da cozinha, mudando de cômodo como quem muda de casa, variando as paisagens ao mudar o angulo ou a perspectiva da sala de estar. 

Talvez seja apenas eu... Arrastei os móveis. Mudei tudo de lugar. Transformei espaços. Só. Só o quarto de dormir permanece igual: Mesma cama de casal, com dois travesseiros, coberta com o lençol de flanela xadrez a aquecer as noites sempre frias da casa vazia, da cama vazia, desta vida cheia de novas perspectivas para o velho dilema. Ser ou não ser... Ficção.

Na dúvida... sigo viva, estou farta de fake views.

Anita Lopes 


P.S. Escrita em 26/09/2020, mas ainda sinto saudades até do sol no batente da cozinha. Será que minha palavra é saudade?

Guardada em velhas caixas [Carta Inacabada]

Querido Caio,

A falta de nossas trocas me afeta. Nossos afetos e afagos semânticos têm constituído a ponte que me une ao mundo tal qual o conhecemos. 

Sem ela o silêncio toma conta do entorno: Ensurdeço, e muda caminho pelas ruas da cidade usando passadiços. Ao atravessar um viaduto, desacelero, perco o ritmo, perco-me do que me conecta e percorro a pista na velocidade dos carros que por ela trafegam e, por um instante, minha mente vaga pelas possibilidades que a pressa dos motoristas me oferecem. Paro. Penso nas manchetes e nas providências. Não estou pronta ainda, não por falta de cansaço.

Tenho vivido tão intensamente minhas possibilidades, que aos 40 anos sinto-me exausta.




observação da autora: escrita em 19 de maio de 2009. Encontrada entre arquivos em 2022  



Malabarismos

Querido,

Tanto tempo. Tanto tempo sem notícias, sem palavras, em silêncio comigo. Do encontrou restou a força de uma certeza: é possível!  E da certeza emerge a coragem para seguir adiante [como sempre] sem olhar para trás. 

E sigo entre encontros e despedidas, sinto pulsar em mim o pulso que ainda pulsa. Sempre. 
E é nesse pulsar ritmado que te encontro, ora próximo, ora distante. Ora presente, ora alheio aos malabarismos que me pego fazendo para chamar tua atenção. 

E rio. Por que preciso fazer tantos malabarismos? Por que ir tirando véus diante de um observador que olha em outra direção - em outras direções - a esmo. Não sei. Sei que assim tem sido. E isso revela muito de mim nesse momento. 

Mera fotografia de um instante. Nem real, nem imaginária. Apenas o instante em que ocorre [te ocorre?]. 

Somos nada e somos tudo, em instante nos metamorfoseamos. Eu sou. Tu és?

Sei não, sei nada. Sei apenas do que sinto, das sensações que gritam es sussurram em meus poros cada vez que nos encontramos em sonhos tão reais e em realidades tão efêmeras. 

Tu, como eu, é andarilho nômade pela própria natureza. Nos encontramos nas andanças, seguistes e eu aqui vivendo a experiência de permanecer nas montanhas inebriandes, nas Minas. 

Aqui permaneci enquanto fostes. Seguistes. Segui. Sigamos. 

Assim ficamos. 

Tua

Anita Lopes

P.S. Regressarás das montanhas bolivarianas?




Carta a Nino

Nino,

Caminho carregando-te comigo.  Não era assim. Aos poucos sua ausência vai  corporificando ao meu lado. O ruído das ruas se mistura ao silêncio profundo em mim e vejo meus olhos percorrem as travessas a te procurar. 

Encontro-te nos parques, nos mercados, nos livros. Quero levar uma parte de ti na bagagem para devolver-te. Quero encontrar-te e te contar segredos e me dizer inteira. Quero dizer o que não digo. E ver tuas mãos deslizando meu corpo e teus dedos a contar minhas costelas. Quero sentir o cheiro dos teus olhos mergulhando nos meus como pêssegos maduros [mesmo que inseguros].

Sinto-te aqui, ali, acolá e na madrugada sinto visitar-me em sonhos. Sonolenta, recebo-te em minha alma, irrigo a terra escorrendo serena e continuamente. Envolvo-te com meus passos, abraço-te em cheiros doces.

Nino, menino lindo que envolve no sorriso do tamanho do Monte Pascoal. Sorriso da descoberta de um dia livre de suposições esdrúxulas, preso em dúvidas perenes sobre Ser ou não ser.

Nino, menino que não me pertence, mas a quem dei meus olhos e minha boca sem pudor ou receio.

Nino-te, nina-me. Somos adultos, podemos. 

Vem ser em mim, o que já sou em ti. 

Suportemos a leveza insustentável de sermos algo desconexos, algo fora das normas. 

Sejamos, eu e tu, apenas o que somos. Eu e tu. Aqui e agora. 

Hoje tua, aqui nua...

Anita Lopes

Carta para Maria




Tanto tempo sem notícias. Parti. Sinto muito por tê-la abandonado desta forma, sem informe. Os últimos dois anos te deixei por mim, te deixei por ti. Soube, ao vê-la em sua saudade [que também é minha] que precisava me recolher para que você gestasse e parisse teus quereres e teus fazeres num mundo em profundas transformações. 

Não foi com tristeza que me afastei de ti, de Caio e de nossas tessituras epistolares. Foi com serenidade que o fiz. Precisava  - depois de tantos anos - descansar meus desejos intensos, rápidos e fugidios. Precisava silenciar Vênus em Áries e dar lugar a Saturno, o senhor do que é, como é, enquanto você despertava do seu sono eterno. 

Aquela Vênus que me acompanha desde o berço me fez tão intensa em invencionices, me fez quase impostora em amores cazuzianos. O fervor das estórias que criei me encheram de alegria, prazer e dor na mesma medida. Tantas [des]ilusões. Tanta aflição e lonjuras. E tu, Maria, serena observava desde um canto de parede minha loucura com coração aquietado pelas distâncias. 

Tuas distâncias, mulher, te protegeram dos amores insanos que inventei, mas acredite... Também escreveram teu epitáfio, te afastaram do amor, da paixão, da vida vivida te recolhendo às linhas das teorias estudadas às quais te dedicou por tanto tempo silenciosamente. Teus muros foram construídos em livros. Tese por cima de tese criaram a Maria sozinha dividida entre solitude e solidão. Protegeram e criaram dor. 

Sim! Eu confesso que nossa dor [sim, nossa!] - a inventada e a real -  me levou a extremos [como a ti no extremo oposto] e com o passar do tempo a pujança se transformou num voo rasante de carcará sobre os largos campos áridos e esvaziados que não saciava minha fome, nem preenchia teus vazios. 

Precisávamos, acredite, deste tempo distanciadas para finalmente nos reaproximarmos, cautelosas e sem máscaras. Já não preciso fingir amores impossíveis, enquanto tu podes - pouco a pouco - deixar cair as máscaras e abrir portas e janelas para que novos ventos te atravessem e tragam a suavidade das brisas de fim de tarde - hora nostálgica de la Rambla. 

Teus desejos, mulher, são travessia. Atravessa. Atraversiamo. Estou aqui, bem diante de ti, despida de ficção e poesia para cantar contigo e escoar plena nossos quereres.  Sei, somos contradição e completude. Somos liberdade e controvérsia. Somos tantas em nós. Somos, apenas, mulher no plural diversas e una. 

Por isso, cá estou, despida diante do espelho, sangrando, real e ficção na unidade do Ser. Íntegra e nossas contradições. Eu, reconvexo,  real. Dançando minhas loucuras, nossas lonjuras, plena de encontros e despedidas. Sou isso e também somos profundezas e grandezas que desconhecemos. 

Então, seguimos em nossa permanência aconchegadas no ninho sendo passarinho. Voemos! 

Sempre tua, 

Anita Lopes








terça-feira, 2 de março de 2021

 


Querido Alberto, 


''A vida não é o tempo que passa, mas o momento vivido.''

(Emanoel Barreto) 


Às vésperas de completar 52 anos (cinquenta e dois anos) - sim, é amanhã - me deparo com o desafio de falar do tempo. O tempo passado e o tempo vivido. Chronos e Kairós. Que dizer? Qual minha relação com os senhores do tempo?

Passaram-se 52 anos desde que chorei pela primeira vez. Foi a primeira, mas não foi a última. Passaram-se 52 anos e neste intervalo de tempo vivi tantas vidas, tu bem sabes. Fostes testemunha, observador participante dos últimos 11 anos. Fostes parte. És parte [és?]. O isolamento me aproximou de pessoas distantes e me afastou de ti. Ou o afastamento terá acontecido antes e eu que teimava em não acreditar? 

Talvez despir minha alma diante de ti no estacionamento tenha sido o primeiro passo para o afastamento. Tu dissestes que me amavas e usastes minhas próprias palavras sobre o Amor ser maior que relacionamento para explicar tua escolha. Eu jamais discordaria de mim quanto ao Amor e assenti silenciosa, enquanto era abraçada por tuas lágrimas. 

Sim, Amor é maior que relacionamento. O Amor é vasto e o relacionamento uma garrafa que pode ou não conter amor, eu te dizia. O que não te disse é que o Amor às vezes precisa de forma. Uma forma que informa os contornos deste amor [minúsculo, mas não menor]. Ele precisa de um corpo que incorpore e que expresse. Mesmo quando a garrafa não tem rótulo ela diz. Silenciosamente ela diz quais os contornos do amor. 

Esse Amor sem forma, vasto...vasto como o voo da gaivota no céu. Este Amor amplo, leve e livre que volteia no céu como pássaro, este Amor também tem forma. Ela é mais sutil e às vezes fugidia, agora vejo, mas tem forma. E esta forma mesmo que tênue informa sua existência no mundo. Tudo o que existe tem forma mesmo que seja imagem sonora, sensória, auditiva, olfativa, mesmo que seja forma de nuvem que se modifica e se redesenha. Teu amor foi nuvem que se dissipou com o vento e hoje percebo que somos pouco mais que velhos conhecidos que já não se conhecem. No último ano e dia, restou para nós chronos.

E é neste ponto da nossa história que me dou conta de que talvez o amor, este amor que dissestes sentir não existe sem kairós. Para logo me perguntar se não viver é uma forma de viver o tempo. Se não falar é uma forma de dizer. Se omissão é ato. O direito penal diria, mesmo que não perguntado... ato comisso por omissão. Aquilo que não faço e que produz resultado exatamente pelo fazer. A omissão que produz efeitos no tempo. 

Passaram-se 11 anos do dia em que nos encontramos pela primeira vez na foyer do Teatro Nacional [ou terá sido no teatro da universidade?]. E neste tempo passado, vivemos tanto e criamos tanta ficção juntos que talvez sejamos ficção. Criamos até carne para Caio Marques. Chronos se irmanou com Kairós por algum tempo, mas em tempo se separaram antes do isolamento, no isolamento que nos tornamos. Já não somos. Já não sou [ou pelo menos preciso deixar de ser]. 

Preciso deixar ir o passado não vivido, aquilo que não passou e seguir adiante. E confesso nem sei como fazer isso. Foi preciso mais que ano e dia, bem mais que ano e dia desde a confissão no estacionamento para que eu finalmente pudesse voltar a ter voz aqui. Minha pele gritou e eu não pude escutar o som ensurdecedor que perguntava insistente: 'o que aconteceu meses antes da sua pele gritar em silencio a impossibilidade de ser tocada'. 

Meus silêncios são longos. Sou uma mulher de longos silêncios que culminam em um fim. Foi assim com todos os meus amores. Quando me calo, é que vou morrer um pouco a cada dia até me despedir. Cheguei a pensar morrer, Alberto. Deixar Maria Cláudia livre para seguir outros caminhos. Fiz uma arqueologia - adoro esta palavra - de tudo o que vivemos pronta para fazer uma carta de despedida que informasse minha morte. Seria dramático, forte, contundente. Teria minha cara. Para em seguida pensar... por que sou eu que tenho de morrer? Por que vou abrir mão da minha existência por um amor de ficção. Eu disse: Não! não os amores e dissabores de Anita Lopes, porque ela sobrevive a tudo.

Então pensei... melhor matar Caio A. Melhor deixar toda essa história de ficção em seu lugar. Foi quando notei que a dor tem corpo... e dói. Escolhi não sofrer. Escolhi não chorar e me vestir novamente diante de ti. Cobrir minha alma com uma manta quentinha e macia, me enrolar nela e me aconchegar. Assim acolhida entre meus próprios braços me reencontrei. 

Ainda há um nó na garganta, talvez ele nunca desapareça, eu o reconheço de outras lápides. Ele é o anúncio do fim de uma história. 

Este é o nosso fim. 

Jamais serei sua novamente

Anita Lopes








terça-feira, 6 de agosto de 2019

Carta em Construção

Oi Caio,

Sou uma autora em recuperação, a cada 24 horas sem viver  ficção. Só por hoje vou escrever crônicas, notícias, pareceres ou notas técnicas. Fazer relatórios de atividades, bilhetes, cartas para analfabetos crônicos ou funcionais.

Eu crio histórias. Sou autora de tantas histórias, engendro personagens cada vez que abro o armário ou vagueio pelas ruas de pedra da cidade. De modo incomum talho histórias e são tantas que mal sei distingui-las. Seria eu a autora por quem as personagens da peça de Pirandello buscam?

Preciso Ser diante de você. Não poderia deixar de revelar [me]. Sou tragada pelos amores improváveis, pelas histórias impossíveis, pelo romantismo comme il faut. Minha autoria é errante como a própria vida deixada pelo caminho.

A autoficção me atravessou esses dias com cores primárias. O vermelho intenso desnudou-me a intensidade com que crio. Sou autora de personagens algo indisponíveis, frequentemente indispostos à entrega. Perdidos, confusos e adictos compõem a minha prateleira e sempre que uma nova história nasce em mim, lanço mão de um desses tipos para compor a jornada de todas as impossibilidades. Os semelhantes se atraem afinal [biofic?]

Há dois meses e dias abri a gaveta, saquei papel e lápis. Afiei a ponta e nutri mais uma história. Juntei pedaços espalhados ao longo da estrada, costurei partes [des]conectadas pelos anos, disposta que estava a escrever algo realmente novo. Lancei mão de afetos profundos, constituídos ao longo da década, escolhi um novo caracter, acendi meus olhos como uma criança num parque à noitinha diante das luzes.

No fundo a gente nasce para o que é, como diriam as cegas que tudo vêem. Logo percebi que o novo era tão indisponível quanto quaisquer outros personagens já criados por mim. Estava tão disposto e ainda assim em muitas dimensões indisponível. Recaí.

Os romances impossíveis são minha assinatura, quase se fundem com quem sou [estou?]. Vício. Adicção. Talvez seja eu a adicta.  Enlaces, romances, histórias minhas drogas de predileção. O coração é um autor solitário parado diante do teclado de letras coloridas, à espreita de uma nova história [mal acabada]. Mais 24 horas. Só por hoje não contarei histórias, não criarei, olharei o cotidiano e nele verei a poesia. Só por hoje escreverei uma crônica dos afetos reais.

sempre tua e agora nua,

Anita Lopes


sexta-feira, 14 de junho de 2019

Arquivos

Querido Caio,

Nem sei se é para ti que escrevo. Quem é o destinatário desta carta? Toda carta tem um destinatário, mesmo que ele não saiba.

Há dias quero escrevê-la. Chego a compor trechos inteiros em minha cabeça. Adio. Adio olhar para parte de meus arquivos em desalinho, para paisagens internas recortadas como um quebra cabeças.

Há três dias tive de olhar. De súbito um trailer passou por detrás dos meus olhos. Não pude vê-lo, não pude deixar de ver. Abri os arquivos suspensos e [re]fiz percursos. Como quem revisita a própria trajetória espalhada em papéis e poesias, classificadas em pastas trocadas, distribuídas em escaninhos diversos.

Nada é acaso. Algo [des]organizado organiza uma estratégia do arconte. É isso? Deixar fragmentos de memória soltos por aí, desassistidos, ao relento impede que a paisagem seja vista em sua totalidade. A história partida, decepada em várias partes e espalhadas pelos postes da estrada real. Se estivessem todas as partes num só lugar eu as veria.

Ver às vezes é muito perigoso.

Ver abre as portas da consciência. [Des]ver não é possível. Assim que agora vejo os fragmentos de memória espalhados no chão da sala. São tantas peças. Vejo-as todas e quase posso tocar a conexão entre elas. Encaixa-las me coloca diante da paisagem que vem se apresentando há tantos anos partida em pequenos pedaços de afeto. Agora vejo. Não há como desver.

Estou diante do desafio de expressar. Palavra(s) solta. Derramada por descuido sobre o branco do papel.

Estratégia de arconte?

Estou diante do desafio de enviar a carta. Não há como desver, assim como não há como [des]dizer. E o que será de nós quando souberes o que meus arquivos revelaram?

sempre tua,

Anita Lopes

terça-feira, 30 de abril de 2019

Pequenos Excessos

Querido Caio,

Como estás? Roubei! Confesso. Roubei o título do espetáculo e alguns fragmentos que ficaram ecoando em meus ouvidos por horas.

''...em matéria de amor o mínimo que peço é excesso.'' O mínimo que peço é excesso, compreendes? É o mínimo que peço. Tão forte esse trecho. Ecoou, ecoa... Excessos...Peço... De súbito cesso os pedidos.

É por acaso amor artigo que se peça?

Parto rumo ao corriqueiro, me entrego à rotina. [Des]peço. Caminho pelo lusco-fusco de sentimentos e de emoções sem diferençar o virtual  e o atual. Impacto do silêncio infindável  penetra fundo. Abre caminho, ocupa minhas fendas. Não preenche os buracos. [Estratégias para estar sobre a Terra?]

Sou dessas - tu bem sabes - não aprendi a viver pela metade, não sou comedida, nem blasé. Em matéria de amor me escondo com o mesmo furor com que me entrego. Com a mesma rapidez que abro a porta, a tranco a sete chaves. Medo e desejo na mesma medida.

Não sei ler mapas, nem entrelinhas, sou analfabeta em matéria de silêncios. Aliás, silêncio é terreno fértil. Em se plantando tudo dá. Desisto de plantar [e de colher]. Levanto os flaps. Faço voos solo, sem riscos, sem dor, sem excessos, sem nada. Sigo.

Sempre sigo, afinal, não é? Sou uma sobrevivente. Sobrevivo a tudo, ao mesmo tempo em que o som de um assovio fino, apavora. Faz correr léguas e me jogar no abrigo antibombas da minha própria companhia.

Sou carcará e ao mesmo tempo passarinho assustado diante do predador. Fujo. A parte que permanece sempre parte. Parto. Sigo adiante levando um monólogo no currículo.

Sempre tua,

Anita Lopes












sábado, 13 de abril de 2019

Corro léguas

Caio,

Sem qualquer savoir faire, cá estou escrevendo o rol de idiossincrasias que me traduzem. É necessário e urgente! Preciso expressar [gritar no alto de um serro] minhas vulnerabilidades.

Cá estou cansada de me apresentar em pequenas grandes porções parfait chocolat. Um resumé de grandes realizações.

Cá estou e onde mora eu real? Fico a me esconder até detrás de linhas poéticas escritas em cartas quase anônimas.

[Basta!]

Cá estou. Não sei ser diante de ti. Justo tu, que te despes diante de mim.

Cá estou ouvindo e vendo o real. Sem disfarces. Eu aqui [in]defesa atrás do escudo.

Compreendo. Sempre compreendo com ares aristocratas.

Cá estou me mostrando a heroína que vence batalhas, dragões, medos. A que supera obstáculos. Que conhece os breus da existência  e já atravessou a estrada escura. Contando as vitórias.

Cá estou tropeçando em minhas próprias pernas, [in]segura diante de um homem e suas circunstâncias.

Cá estou [im]potente diante de minhas circunstâncias a arrancar a própria pele. Deixo-me aqui abandonada aos insetos para então [res]surgir sem tantas coberturas. Hoje morro um tanto mais.

Cá estou atravessada pelo desejo de fugir. Correr léguas. Pela vontade de ser impedida de escapar, como um vulto atrás de cortinas translúcidas a espiar a janela.

Cá estou farta do show de Trumann.

Apenas uma mulher diante de um homem. Sem mapas.

Cá estou: Pronta [sem escudos] para o encontro. Eu diante do espelho, armada de batom e de medo.

ainda tua,

Anita Lopes


sábado, 10 de novembro de 2018

Todas as Cartas de Amor são ridículas

Querido Caio,

''Dizem que o amor é lindo, mas também é brega. E se não é brega é porque não é muito''. Assim começava a dedicatória do livro que ele me enviou de Nova Iorque. O ''Pequeno grande livro sobre o amor''. Ele o comprou no Metropolitam Museum.

Caminhei quase 15 anos desde que recebi esse livro e ele me acompanha todos os dias desde então. Nada foi posto no varal [penso]. Vivemos os possíveis mesmo que inimaginável. Fizemos o percurso sem final feliz. Um trajeto sem fim. Mas ao olhar para meu quintal, não posso deixar de ver as minhas horas com ele penduradas.

Horas vividas em sete cidades, como é do meu feitio. Andamos juntos mesmo separados num trecho de nossas estradas. Havia muitos ipês, cumes e vales. Havia tanto para um trecho tão curto. Tanto que memórias e livro me acompanham até hoje.

Mal posso reconhecer nossos passos partilhados nas dobras que vejo em seu rosto publicado em páginas de jornal. ''Nunca mais serei o mesmo homem'' me disse certa vez depois de sua tragédia particular. Muitos anos depois de nós dois perdidos numa noite em Nova Iorque. Agora entendo o que ele disse. Não, ele não é mesmo o homem que partilhou aquele trecho poético comigo. Ele não é mais. Tornou-se quem é e estampou sua verdade em páginas eletrônicas de tinta e de papel.

E nossas horas penduradas... eu as vejo longe, entre um amor e outro, entre um encontro e outro, eu as vejo em cada detalhe do livro que me acompanha, no possível vivido, no impensável realizado, no não que disse à idealização de nós dois.

Sabes bem que venho e volto tecendo a compreensão do amor em cidades.

Deixo-te assim... Sentindo lonjuras de ti e nostalgia do que vivi,

tua

Anita Lopes


sábado, 3 de novembro de 2018

Carta Entretecida

Querido Caio,

Tanto tempo para responder teu jogo de palavras. Foi um jogo de palavras, não foi? Foi um jogo de amarelinha ou talvez as palavras estiveram cruzadas e entre cruzadas nos encontros e desencontros. [Prefiro os encontros].

Não quaisquer encontros. Mas aqueles que demoram a emergir. Aqueles que acontecem despretensiosos e vão se agigantando com o passar dos dias, dos meses, dos anos. Aqueles imprevisíveis a olho nu. Em que nada é nada e daí vai surgindo um brilho pequenino. Um sorriso. Um par de olhos [nos olhos].

Eu estava na frente do balcão. Estávamos: Eu e tu - lado a lado.
Diante de nós a filosofia. Filosofia, política, poesia e absinto combinam deliciosamente. O verde claríssimo vai fazendo dia nas ideias, transluz sentimentos.  Acende aos poucos o calor de uns desejos singelos.

Encontro entretece o desejo que me acomete entre a janela e o balcão. E então minha poesia encontra tuas letras e teu jogo de palavras. És Caio ou somos? Quem somos, afinal? Idas e vindas, cartas sem fim, olhares, sorrisos, piscadelas, beijos arremessados ao vento, barulho de talheres, de copos, de fantasias proibidas, absinto... Sinto? Sentes?

Jogos, palavras... Há uma química no ar. Entre nós - Caio, Anita, Virgílio e quem... Nós entre nós. Enovelando a teia que nos tece. Virgílio por fim encontra seu lugar no tecido que tecemos e entretecemos: Coringa.

Sede. Minha boca deseja mais um gole de absinto. Sinto o verde intenso e úmido na boca seca. Aquece[dor]. Fogo sagrado desse lugar que nos abriga há cinco anos. Do lugar que nos aproximou até minha rendição à cidade. Amo esse lugar!

Olho para a carta. Percorro tudo o que escrevi. Quero te ler através da teia e das linhas finas que vimos tecendo, sem urgências e que agora urgem [para mim].

Olho longamente para o papel fino desta carta. Talvez seja o começo de algo, talvez seja a premeditação de um fim prematuro ou o salto no abismo. Dobro o papel lentamente. Sentindo cada dobra como parte da poesia escrita a quatro mãos. Posso ver os versos nas transparências do papel, no pretexto e nas entrelinhas.

Desdobro a dobradura e lá estão os versos. Vejo-os agora em todo lugar. Começo a sentir urgências e respiro. Dobro mais uma vez com cuidado o papel. Envelopo. Olho o envelope aberto longamente. Toco a ponta da língua úmida nas bordas. Fecho desejando abrir uma vez mais. Fecho com dedos trêmulos. Desejo abrir[me].

Envio esta carta ao tempo em que te deixo,

tua sempre

Anita Lopes




segunda-feira, 2 de abril de 2018

A gramática, os silêncios e os sons

Querido Caio,

Como sabes, não sou mulher de me submeter nem à gramática, nem a cousa alguma. Ainda mais ela, que teima em encaixotar as expressões, muitas vezes, reconheço, em nome da clareza [luz?], outras por puro fetiche.

O que é a gramática afinal senão um conjunto de normas erga omnes [escuridão?] Só de ser contra todos já não me apetece. Não somos iguais! Temos saberes diversos, entendimentos distintos, referenciais inimagináveis. Como submeter a um conjunto de normas que não comporta a beleza e a pureza da língua viva, a liberdade de transitar ou não?

Fico me perguntando de cá sobre esse trânsito. Transita de cá, transita de lá... Às vezes sou intransitiva, mesmo que a gramática não me autorize. Mesmo que o mundo me critique por isso. Às vezes transito onde não devo e para onde não posso. Faço e assim desloco e coloco luz  em um corpo que teima em ser livre, sem dicotomias.

Transitar é permitir-se ser a tal metamorfose ambulante. Não transitar é prescindir. De certas coisas prescindo.
Assim, luz e escuridão vão dando lugar a um movimento que nem é um, nem é outro. Mas que pode ser ambos, ao mesmo tempo, sem constrangimentos. Ainda que não veja, a luz oculta a escuridão.

Ou pode ser ainda, mera ignorância. E como é bom ignorar para estar aberto a ver na escuridão quando somos tão cegos em meio à abundância de luz que ora nos invade. Muita luz cega. A vastidão de informação não gera conhecimento. Ao contrário, amplia os abismos da [des]informação. A abundância é um poço sem fundo, às vezes vazio. Cuidado!

Insisto que o melhor é não saber. Não sabendo se é dia ou noite, o cego transita aspirando os odores do mundo, tateando corpos e coisas, apurando o ouvido para silêncios e sons. E cá estamos nós de novo nas dicotomias ou - diria eu - nas complementaridades.

Sei lá se entendi o que dissestes. Sei apenas que não me submeto, mas o faço sorrindo. Aprendi a ralhar sorrindo, a chorar sorrindo, a acolher seja na luz, seja na escuridão tudo o que vier como o mais perfeito presente. Ainda que isso me custe silêncio ou palavras. Eu pago o preço.

E sobre silêncios... Calo para ouvir seus sons atentamente.

E ainda assim, não me submeto.

Sua sempre,

Anita


quinta-feira, 8 de março de 2018

Faz tempo...

Querido Caio,

...faz tempo. faz tempo que faço e no feitio do tempo - em retribuição - ele me faz [ou será o contrário?].

E minha língua empena, tal como a sua. ou empena diferente? é a língua ou a linguagem que dá nó nas minhas idéias? as idéias nasceram enroladas de pai e mãe mesmo? ou foram se emaranhando no caminho?

não sei... e juro que a felicidade me pega pela mão quando percebo que não sei. a felicidade simples de saber que não sei e que essa ignorância me faz disposta a tudo. aos afetos e ao que afeta. Lígia Pappi me afeta. suas lacunas preenchidas de escuridão, suas pontes tecidas em fios dourados, arco-íris amarelos sem começo e sem fim. marcas fixas no chão sem destino. túneis sobrepostos em sombra e luz. passagens secretas para um mundo idílico: jogo de esconde esconde. sutil. como traduzir seu jogo em palavras? a língua se enrola ou me enrolo nela. sabendo e não sabendo ao mesmo tempo. vou seguindo e vou tropeçando nos tempos e nas palavras. palavras. tantas palavras. tantas línguas. erros?

percebo que não há erro quando o entendimento se dá entre duas línguas. [há?]

ainda não sei. e mais uma vez sorrio e celebro a ignorância de tudo. como é bom não saber e me expor à arte, aos jardins, aos cheiros, aos gostos, à vida e, claro, à língua estrangeira que me atravessa há mais de trinta dias. todos os dias. todas as horas do dia, mesmo aquelas mais fugidias da madrugada, entre sussurros e afagos.

e as palavras? amigas inseparáveis, pontes que me conduzem da luz para a escuridão com passagem de ida e volta. ah, as palavras... elas me faltam tanto e não fazem falta agora que fui atravessada por tantas línguas quanto conheço e mesmo por mais tantas que desconheço. dia e noite. noite e dia.

faltam palavras e línguas para expressar o que me atravessa a vida a esta altura, Caio, querido. encontrei a ponte para o sempre e ela me leva e traz todos os dias sem cobrar pedágio ou passagem. estou simplesmente feliz, já que perguntou.

Agradeço as palavras ofertadas quase com devoção. Agradeço a experiência de tê-lo do lado de lá da esperança. Agradeço.

Sua sempre,

Anita

P.S. Ver Lígia Pappi  ilumina a alma mesmo na escuridão.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Carta dos Silêncios Compulsórios - Título Provisório

Caio, querido

Nossas distâncias em lugar de nos aislar nos aproximam. Cada vez que ouço tua voz, seja nas letras, seja em tecnologias sei que somos sempre e sempre seremos. Das novas que não partilhamos, divido agora do corriqueiro que me tem assediado a cada instante. Convite para o enamoramento das pequenas cotidinianidades [isso existe?].

Não sei se sigo os dias ou se eles me seguem. Desde que voltei de Montevidéu vivo por detrás dos óculos de sol, cachecol de algodão fino ao vento, indo e vindo, me [re]constituindo, ampliando meus horizontes numa pequena cidade de cem mil habitantes.

Mas esta carta não é sobre a cidade e eu. Reservarei uma especialmente para falar desta relação diária com as descobertas deliciosas que tenho feito por aqui. Esta carta é para te dizer de janelas que abrem e fecham, de silêncios compulsórios, de tatear na escuridão em busca de clareza.

Esta é para dizer o que tu já sabes há muito e te contar que tenho percorrido caminhos não habituais. Escolhi fazer escolhas novas. Tenho me experimentado em outros papéis, em novos scripts como quem prova uma comida exótica. É um jeito bonito e poético de experimentar-me outra e escapar da dor.

Sempre fui uma alienígena. De súbito sou tão humana, com dores e sonhos tão humanos. Minha forma de transitar no mundo e nas relações antes de me esquivar da dor, agora me joga na boca do leão, me põe cara a cara com a beira do abismo. E lá, bem no alto, sinto o vento fresco da liberdade de estar  noutro lugar, noutra posição do triângulo.

 E num paradoxo me revelo tão imensamente pequeno burguesa, com sonhos tão pequeno burgueses. E isso tudo é julgamento, me dirias espantado. E eu te confirmarias que sou isso também. Nada extraordinário, apenas uma mulher diante de um homem querendo um parceiro de jornada.

Esta é uma carta de quereres. Quereres aprisionados num silêncio compulsório. Quereres sob a tortura discreta de uma uma janela que se abre apenas quando o dono da chave decide abrir. Sinto-me presa do lado de fora. A espera de uma janela que se abre. E que não se abre.

Tu me perguntarias o que me mantém diante da janela à espera de uma ração medida de afeto. Te dirias, sem qualquer constrangimento, que o que vi do lado de lá da janelinha me pareceu raro. Raro e belo. Forte e inexplicavelmente destoante de todo o resto.

E te confessaria, sem rancor ou pudor, que já duvido de mim e do que vi. Chego a pensar que foi miragem ou alucinação. E busco nos baús da vida referências a fantasias infantis. Sem êxito. E a areia segue escorrendo por entre os dedos e na ampulheta.

Experimento ser expectadora de minha própria história. E surpreendo-me com a experiência de ser platéia, em lugar de ser estrela. De estar na coxia em lugar de sobre o palco. Experimento por um instante ser a sub, desempenhando um papel menor em lugar de interpretar o principal.

Há algo de desconfortável em viver novos papéis, há algo de belo e algo de desafiador. E é no desafio que me reconheço. Quase posso ver teu sorriso largo se abrindo do lado daí das letrinhas. Posso te ouvir dizendo 'touché!', antecipando todo o entendimento do encanto das minhas novas andanças.

E por ser carta de quereres e de confissões, mando-te que [é o desafio também]fui capturada e talvez me negue a ser resgatada por viver a síndrome de Estocolmo. E quase ouço tua gargalhada!

Tiro os óculos [mas não o cachecol] e poderás ouvir a gargalhada com que te respondo, deixando a cabeça cair para trás, os ombros subirem para logo se dobrarem sobre mim mesma. Tudo cena, que afinal, antes de tudo e qualquer coisa, sou atriz. Tu bem sabes! Pessoa há de me entender.

Deixo-te agora, espero que sob estrondosos aplausos, tomada de saudades.

Volte logo, vivo sem você, mas não gosto.

Tua sempre,

Anita Lopes




terça-feira, 17 de outubro de 2017

Carta que não se despede

Querido Caio,

Eu preciso te contar que me encontrei nessas pradarias. Impossível me despedir de Montevideo sem deixar uma parte de mim. Parte importante que aqui se instala a espera do meu retorno como criança em porta de escola esperando pela mãe. 

Assim é... Quando teu lugar é tantos encontrar-se numa parte do avizinhada do mundo é deixar-se ficar um pouco, em parte e partir sem olhar para trás e já com desejo de voltar. 

Fica a imaginar quando poderei regressar ao tempo em que sinto que está longe longe daqui a oportunidade. Quem sabe o que o futuro me reserva em minha nova morada. Esta a que me propus uma experiência de permanência. Lograrei? Não sei, nunca sei quando de súbito recolherei as roupas do varal direto para a maleta e montarei a casa nas costas para noutras paragens me instalar com ânimo definitivo enquanto dure. 

A ver, te diria, se me ouvisses agora. Mas não me ouves agora, por que este Caio a quem escrevo não está neste momento. É Caio que vive num futuro distante e distópico, numa Montevideo de muros erguidos, num mundo cheio de fronteiras fechadas em que assumimos máscaras que nos revelam e alguns exibem rostos desnudos em assintoso afronte ao direito sagrado dos demais. 

Sim, a distopia nos flagrará em alguns anos e tu, Caio serás o mensageiro destas notícias agora antecipadas a mim. 

Sei que serei mais feliz quando te encontrar em minhas linhas curtas, numa prévia de um metaverso multiversátil qualquer. 

O encontro será inevitável por tudo o que vivemos cada vez que sonho com Montevideo desde o agora findável ao infinito não vivido ainda. 

Espero você em algum momento daqui para adiante. 

Em algum lugar insuspeito ou momento utópico. 

tua desde já,

Anita Lopes