sábado, 1 de janeiro de 2022

Carta a Nino

Nino,

Caminho carregando-te comigo.  Não era assim. Aos poucos sua ausência vai  corporificando ao meu lado. O ruído das ruas se mistura ao silêncio profundo em mim e vejo meus olhos percorrem as travessas a te procurar. 

Encontro-te nos parques, nos mercados, nos livros. Quero levar uma parte de ti na bagagem para devolver-te. Quero encontrar-te e te contar segredos e me dizer inteira. Quero dizer o que não digo. E ver tuas mãos deslizando meu corpo e teus dedos a contar minhas costelas. Quero sentir o cheiro dos teus olhos mergulhando nos meus como pêssegos maduros [mesmo que inseguros].

Sinto-te aqui, ali, acolá e na madrugada sinto visitar-me em sonhos. Sonolenta, recebo-te em minha alma, irrigo a terra escorrendo serena e continuamente. Envolvo-te com meus passos, abraço-te em cheiros doces.

Nino, menino lindo que envolve no sorriso do tamanho do Monte Pascoal. Sorriso da descoberta de um dia livre de suposições esdrúxulas, preso em dúvidas perenes sobre Ser ou não ser.

Nino, menino que não me pertence, mas a quem dei meus olhos e minha boca sem pudor ou receio.

Nino-te, nina-me. Somos adultos, podemos. 

Vem ser em mim, o que já sou em ti. 

Suportemos a leveza insustentável de sermos algo desconexos, algo fora das normas. 

Sejamos, eu e tu, apenas o que somos. Eu e tu. Aqui e agora. 

Hoje tua, aqui nua...

Anita Lopes

Carta para Maria




Tanto tempo sem notícias. Parti. Sinto muito por tê-la abandonado desta forma, sem informe. Os últimos dois anos te deixei por mim, te deixei por ti. Soube, ao vê-la em sua saudade [que também é minha] que precisava me recolher para que você gestasse e parisse teus quereres e teus fazeres num mundo em profundas transformações. 

Não foi com tristeza que me afastei de ti, de Caio e de nossas tessituras epistolares. Foi com serenidade que o fiz. Precisava  - depois de tantos anos - descansar meus desejos intensos, rápidos e fugidios. Precisava silenciar Vênus em Áries e dar lugar a Saturno, o senhor do que é, como é, enquanto você despertava do seu sono eterno. 

Aquela Vênus que me acompanha desde o berço me fez tão intensa em invencionices, me fez quase impostora em amores cazuzianos. O fervor das estórias que criei me encheram de alegria, prazer e dor na mesma medida. Tantas [des]ilusões. Tanta aflição e lonjuras. E tu, Maria, serena observava desde um canto de parede minha loucura com coração aquietado pelas distâncias. 

Tuas distâncias, mulher, te protegeram dos amores insanos que inventei, mas acredite... Também escreveram teu epitáfio, te afastaram do amor, da paixão, da vida vivida te recolhendo às linhas das teorias estudadas às quais te dedicou por tanto tempo silenciosamente. Teus muros foram construídos em livros. Tese por cima de tese criaram a Maria sozinha dividida entre solitude e solidão. Protegeram e criaram dor. 

Sim! Eu confesso que nossa dor [sim, nossa!] - a inventada e a real -  me levou a extremos [como a ti no extremo oposto] e com o passar do tempo a pujança se transformou num voo rasante de carcará sobre os largos campos áridos e esvaziados que não saciava minha fome, nem preenchia teus vazios. 

Precisávamos, acredite, deste tempo distanciadas para finalmente nos reaproximarmos, cautelosas e sem máscaras. Já não preciso fingir amores impossíveis, enquanto tu podes - pouco a pouco - deixar cair as máscaras e abrir portas e janelas para que novos ventos te atravessem e tragam a suavidade das brisas de fim de tarde - hora nostálgica de la Rambla

Teus desejos, mulher, são travessia. Atravessa. Atraversiamo. Estou aqui, bem diante de ti, despida de ficção e poesia para cantar contigo e escoar plena nossos quereres.  Sei, somos contradição e completude. Somos liberdade e controvérsia. Somos tantas em nós. Somos, apenas, mulher no plural diversas e una. 

Por isso, cá estou, despida diante do espelho, sangrando, real e ficção na unidade do Ser. Íntegra e nossas contradições. Eu, reconvexo,  real. Dançando minhas loucuras, nossas lonjuras, plena de encontros e despedidas. Sou isso e também somos profundezas e grandezas que desconhecemos. 

Então, seguimos em nossa permanência aconchegadas no ninho sendo passarinho. Voemos! 

Sempre tua, 

Anita Lopes








terça-feira, 2 de março de 2021

 


Querido Alberto, 


''A vida não é o tempo que passa, mas o momento vivido.''

(Emanoel Barreto) 


Às vésperas de completar 52 anos (cinquenta e dois anos) - sim, é amanhã - me deparo com o desafio de falar do tempo. O tempo passado e o tempo vivido. Chronos e Kairós. Que dizer? Qual minha relação com os senhores do tempo?

Passaram-se 52 anos desde que chorei pela primeira vez. Foi a primeira, mas não foi a última. Passaram-se 52 anos e neste intervalo de tempo vivi tantas vidas, tu bem sabes. Fostes testemunha, observador participante dos últimos 11 anos. Fostes parte. És parte [és?]. O isolamento me aproximou de pessoas distantes e me afastou de ti. Ou o afastamento terá acontecido antes e eu que teimava em não acreditar? 

Talvez despir minha alma diante de ti no estacionamento tenha sido o primeiro passo para o afastamento. Tu dissestes que me amavas e usastes minhas próprias palavras sobre o Amor ser maior que relacionamento para explicar tua escolha. Eu jamais discordaria de mim quanto ao Amor e assenti silenciosa, enquanto era abraçada por tuas lágrimas. 

Sim, Amor é maior que relacionamento. O Amor é vasto e o relacionamento uma garrafa que pode ou não conter amor, eu te dizia. O que não te disse é que o Amor às vezes precisa de forma. Uma forma que informa os contornos deste amor [minúsculo, mas não menor]. Ele precisa de um corpo que incorpore e que expresse. Mesmo quando a garrafa não tem rótulo ela diz. Silenciosamente ela diz quais os contornos do amor. 

Esse Amor sem forma, vasto...vasto como o voo da gaivota no céu. Este Amor amplo, leve e livre que volteia no céu como pássaro, este Amor também tem forma. Ela é mais sutil e às vezes fugidia, agora vejo, mas tem forma. E esta forma mesmo que tênue informa sua existência no mundo. Tudo o que existe tem forma mesmo que seja imagem sonora, sensória, auditiva, olfativa, mesmo que seja forma de nuvem que se modifica e se redesenha. Teu amor foi nuvem que se dissipou com o vento e hoje percebo que somos pouco mais que velhos conhecidos que já não se conhecem. No último ano e dia, restou para nós chronos.

E é neste ponto da nossa história que me dou conta de que talvez o amor, este amor que dissestes sentir não existe sem kairós. Para logo me perguntar se não viver é uma forma de viver o tempo. Se não falar é uma forma de dizer. Se omissão é ato. O direito penal diria, mesmo que não perguntado... ato comisso por omissão. Aquilo que não faço e que produz resultado exatamente pelo fazer. A omissão que produz efeitos no tempo. 

Passaram-se 11 anos do dia em que nos encontramos pela primeira vez na foyer do Teatro Nacional [ou terá sido no teatro da universidade?]. E neste tempo passado, vivemos tanto e criamos tanta ficção juntos que talvez sejamos ficção. Criamos até carne para Caio Marques. Chronos se irmanou com Kairós por algum tempo, mas em tempo se separaram antes do isolamento, no isolamento que nos tornamos. Já não somos. Já não sou [ou pelo menos preciso deixar de ser]. 

Preciso deixar ir o passado não vivido, aquilo que não passou e seguir adiante. E confesso nem sei como fazer isso. Foi preciso mais que ano e dia, bem mais que ano e dia desde a confissão no estacionamento para que eu finalmente pudesse voltar a ter voz aqui. Minha pele gritou e eu não pude escutar o som ensurdecedor que perguntava insistente: 'o que aconteceu meses antes da sua pele gritar em silencio a impossibilidade de ser tocada'. 

Meus silêncios são longos. Sou uma mulher de longos silêncios que culminam em um fim. Foi assim com todos os meus amores. Quando me calo, é que vou morrer um pouco a cada dia até me despedir. Cheguei a pensar morrer, Alberto. Deixar Maria Cláudia livre para seguir outros caminhos. Fiz uma arqueologia - adoro esta palavra - de tudo o que vivemos pronta para fazer uma carta de despedida que informasse minha morte. Seria dramático, forte, contundente. Teria minha cara. Para em seguida pensar... por que sou eu que tenho de morrer? Por que vou abrir mão da minha existência por um amor de ficção. Eu disse: Não! não os amores e dissabores de Anita Lopes, porque ela sobrevive a tudo.

Então pensei... melhor matar Caio A. Melhor deixar toda essa história de ficção em seu lugar. Foi quando notei que a dor tem corpo... e dói. Escolhi não sofrer. Escolhi não chorar e me vestir novamente diante de ti. Cobrir minha alma com uma manta quentinha e macia, me enrolar nela e me aconchegar. Assim acolhida entre meus próprios braços me reencontrei. 

Ainda há um nó na garganta, talvez ele nunca desapareça, eu o reconheço de outras lápides. Ele é o anúncio do fim de uma história. 

Este é o nosso fim. 

Jamais serei sua novamente

Anita Lopes








terça-feira, 6 de agosto de 2019

Carta em Construção

Oi Caio,

Sou uma autora em recuperação, a cada 24 horas sem viver  ficção. Só por hoje vou escrever crônicas, notícias, pareceres ou notas técnicas. Fazer relatórios de atividades, bilhetes, cartas para analfabetos crônicos ou funcionais.

Eu crio histórias. Sou autora de tantas histórias, engendro personagens cada vez que abro o armário ou vagueio pelas ruas de pedra da cidade. De modo incomum talho histórias e são tantas que mal sei distingui-las. Seria eu a autora por quem as personagens da peça de Pirandello buscam?

Preciso Ser diante de você. Não poderia deixar de revelar [me]. Sou tragada pelos amores improváveis, pelas histórias impossíveis, pelo romantismo comme il faut. Minha autoria é errante como a própria vida deixada pelo caminho.

A autoficção me atravessou esses dias com cores primárias. O vermelho intenso desnudou-me a intensidade com que crio. Sou autora de personagens algo indisponíveis, frequentemente indispostos à entrega. Perdidos, confusos e adictos compõem a minha prateleira e sempre que uma nova história nasce em mim, lanço mão de um desses tipos para compor a jornada de todas as impossibilidades. Os semelhantes se atraem afinal [biofic?]

Há dois meses e dias abri a gaveta, saquei papel e lápis. Afiei a ponta e nutri mais uma história. Juntei pedaços espalhados ao longo da estrada, costurei partes [des]conectadas pelos anos, disposta que estava a escrever algo realmente novo. Lancei mão de afetos profundos, constituídos ao longo da década, escolhi um novo caracter, acendi meus olhos como uma criança num parque à noitinha diante das luzes.

No fundo a gente nasce para o que é, como diriam as cegas que tudo vêem. Logo percebi que o novo era tão indisponível quanto quaisquer outros personagens já criados por mim. Estava tão disposto e ainda assim em muitas dimensões indisponível. Recaí.

Os romances impossíveis são minha assinatura, quase se fundem com quem sou [estou?]. Vício. Adicção. Talvez seja eu a adicta.  Enlaces, romances, histórias minhas drogas de predileção. O coração é um autor solitário parado diante do teclado de letras coloridas, à espreita de uma nova história [mal acabada]. Mais 24 horas. Só por hoje não contarei histórias, não criarei, olharei o cotidiano e nele verei a poesia. Só por hoje escreverei uma crônica dos afetos reais.

sempre tua e agora nua,

Anita Lopes


sexta-feira, 14 de junho de 2019

Arquivos

Querido Caio,

Nem sei se é para ti que escrevo. Quem é o destinatário desta carta? Toda carta tem um destinatário, mesmo que ele não saiba.

Há dias quero escrevê-la. Chego a compor trechos inteiros em minha cabeça. Adio. Adio olhar para parte de meus arquivos em desalinho, para paisagens internas recortadas como um quebra cabeças.

Há três dias tive de olhar. De súbito um trailer passou por detrás dos meus olhos. Não pude vê-lo, não pude deixar de ver. Abri os arquivos suspensos e [re]fiz percursos. Como quem revisita a própria trajetória espalhada em papéis e poesias, classificadas em pastas trocadas, distribuídas em escaninhos diversos.

Nada é acaso. Algo [des]organizado organiza uma estratégia do arconte. É isso? Deixar fragmentos de memória soltos por aí, desassistidos, ao relento impede que a paisagem seja vista em sua totalidade. A história partida, decepada em várias partes e espalhadas pelos postes da estrada real. Se estivessem todas as partes num só lugar eu as veria.

Ver às vezes é muito perigoso.

Ver abre as portas da consciência. [Des]ver não é possível. Assim que agora vejo os fragmentos de memória espalhados no chão da sala. São tantas peças. Vejo-as todas e quase posso tocar a conexão entre elas. Encaixa-las me coloca diante da paisagem que vem se apresentando há tantos anos partida em pequenos pedaços de afeto. Agora vejo. Não há como desver.

Estou diante do desafio de expressar. Palavra(s) solta. Derramada por descuido sobre o branco do papel.

Estratégia de arconte?

Estou diante do desafio de enviar a carta. Não há como desver, assim como não há como [des]dizer. E o que será de nós quando souberes o que meus arquivos revelaram?

sempre tua,

Anita Lopes